Conhecer o Traje

O Traje da Academia

Aquando da realização de um trabalho para uma cadeira, Luís Novais, Presidente da Associação Académica da Universidade do Minho entre 1988 e 1991, analisando uns manuscritos do Arquivo Distrital de Braga, acaba por encontrar umas Memórias de Inácio José Peixoto datadas do século XVIII. Nelas escrevia-se que “Braga era uma Universidade e trazia mais de dous mil estudantes”. E mais adiante lançava-se um “direi como trajavão então.” E Inácio José Peixoto descreve o traje dos estudantes da Universidade que Braga tinha na altura (chamava-lhe Universidade mas eram na verdade uns Estudos Gerais).

Esse traje tinha desaparecido com a expulsão dos Jesuítas pelo Marquês de Pombal. A Direcção de Luís Novais resolve levar as Memórias a uma estilista que, baseando-se nesse manuscrito e nuns painéis de azulejos que existem na reitoria também do século XVIII, desenha o figurino actual. E a Academia pôde adoptar outra vez o seu antigo e tradicional traje.

O traje da Academia Minhota foi designado por Tricórnio. É composto por sapatos pretos; meias pretas; bermudas pretas (para os homens) ou saia preta (para as senhoras); camisa branca abotoada nas costas; casaco preto; capa preta; chapéu (que é o tricórnio propriamente dito); e pasta preta. Para diferenciar os estudantes trajados foram criadas as Insígnias, isto é, as fitas de diversas cores e larguras que são colocadas na manga direita do casaco, presas sob o símbolo da AAUM ou da UM. Cada cor (ou conjunto de duas cores) representa um curso, o número de fitas representa o número de inscrições na Universidade e a largura das fitas (em centímetros) o ano curricular em que está matriculado.

O Traje da Azeituna

O Traje da Azeituna é baseado no Traje da Academia Minhota, com algumas alterações distintivas principalmente ao nível da cor, predominando o azul celeste dos cursos de ciências. As meias ou collants azuis são muito cobiçadas na Azeituna. Em todos os festivais ou digressões são peças raras e valiosas, sendo guardadas nos cofres dos hotéis para evitar roubos por parte dos outros elementos do grupo.

Os Azeitunos têm os machos das mangas dos seus casacos forrados com cetim azul celeste e sobre o ombro direito ostentam o “Minete”, insígnia máxima da Azeituna, onde repousa a Deusa Harpa no seu Brasão. De notar que nem sempre o “Minete” foi símbolo máximo do Azeituno. Como elemento distintivo do traje, foi introduzido apenas em finais de 1993 para ser estreado no I CELTA. Na mesma altura trocava-se também o original “azul-clitóris” dos machos dos casacos e das meias pela tonalidade de azul que se conhece actualmente.

Os Tunos têm o mesmo traje do Azeituno mas não receberam ainda o “Minete”. A sua formação não está completa e terão ainda muito a provar antes da cerimónia de passagem.

O traje dos caroços da Azeituna tem apenas duas cores, o preto e o azul celeste. À semelhança dos primeiros portugueses, também os caroços estão envolvidos em guerras e trabalhos que os obrigam a ter um traje prático e protector. Como a cota de malha que protegia os cavaleiros durante a defesa da honra, a parte superior do traje dos caroços está dividida em quatro partes - mangas e tronco, direita e esquerda – de cores alternadas, ficando o azul celeste no tronco direito (onde os Azeitunos usam o “Minete”). Os calções estão divididos em perna direita e esquerda e as cores são alternadas, tal como nas meias.

Quando um novo elemento chega à Azeituna começa logo a aprender as músicas e a integrar-se no grupo. Em atividades oficiais, os pré-caroços utilizam um pijama azul durante o tempo necessário para concluir a primeira fase da aprendizagem.

O tricórnio e a capa estão dispensados por motivos de proteção de património. Dizem os recentes estudos do Instituto Azeitunal de Estatística que em 20 anos se perderam em média 6,2 capas por ano e praticamente todos os tricórnios.

Em 2010 o Cabido de Cardeais, órgão que regulamenta a praxe na Universidade do Minho, emitiu uma Bula Papal permitindo que os elementos da Azeituna exerçam a praxe na Academia Minhota usando o Traje Azeitunal.

* a primeira parte deste texto segue de perto o livro “Tradições Académicas de Braga”, editado pela Associação Académica da Universidade do Minho em 2001.


 O cursus honorum

Na Roma Antiga existia um percurso sequencial para o exercício das magistraturas consoante a sua importância. Na azul Bracara Augusta também. Em jeito de introdução poderemos referir que os Azeitunos têm lábios e estômago, os Tunos têm beiços e barriga, e os caroços têm bordas e pança. É também uma boa referência o livro “O Triunfo dos Porcos” de George Orwell, do qual podemos adaptar um lema: “todos somos iguais mas alguns são mais iguais que os outros; os Azeitunos são mais iguais do que os Tunos e os Tunos são mais iguais do que os caroços”.

O Pré-caroço

Antes sequer de ter bordas e pança, o mancebo que chega à Azeituna sem qualquer ideia do processo pelo qual vai passar nos anos seguintes caso esteja evolutivamente adaptado para isso, encontra-se em fase larvar. Assim, nos seus primeiros tempos neste novo mundo, a sua indumentária é simplesmente composta por um corriqueiro pijama azul, o qual nem se preocupou em engomar ou comprou à pressa numa loja de conveniência antes de ir para a sua primeira actuação. É com essa aparência que irá demonstrar ter vontade de representar e pertencer ao grupo. Enquanto a primeira luz lhe vai entrando nos olhos, vai também descobrindo quais os elementos que compõem a atmosfera do planeta no qual acaba de aterrar. Aos primeiros sinais de reacção aos estímulos exteriores, o corriqueiro casulo azul vai rompendo e dele irá emergir um promissor caroço que aspira a completar o seu processo alomórfico com um todo de valores por assimilar.

O Caroço

O aspecto morfológico do caroço contém já as cores do Azeituno, o Azul Celeste e o Preto, distribuídas de forma simétrica pelo seu traje. Durante o tempo de caroço aprende e assimila, a bem ou a mal, quais os pilares que sustentam a estrutura de um Azeituno, os mandamentos pelos quais se rege e qual a importância da “Azeituníssima Trindade”. Nesta fase acontece a chamada “Praxe da Responsabilidade”*, onde movido pela força da sempre iminente Cepa, o caroço interioriza a importância de cumprir com as obrigações que lhe são devidas. É normalmente durante este período que é notória a existência de Seleção Natural no seio da Azeituna. Sem necessidade de subirmos a bordo do Beagle e viajarmos até ao arquipélago das Ilhas Galápagos, podemos facilmente comprovar a teoria evolucionista de Charles Darwin. São os caroços que desenvolvem as características propiciadoras de melhor adaptação ao habitat Azeitunal que crescem e sobrevivem no seu seio.
Para melhor se perceber o alcance e disseminação do uso da Cepa, atente-se à letra do hino dos caroços escrita em 1996 por “Grunho”, “Gugu” e “Santo”, sob a égide de uma música recolhida de um grupo de escuteiros de Coimbra.

Sou caroço e faço parte da Azeituna
O meu papel desempenho com paixão
O meu cachaço já está habituado (yahoo)
A levar cepas do tuno borrachão.

À noitinha quando chego à salinha
A curar a ressaca ainda eu vou
Pego no meu instrumento e afino (yahoo)
E aos tunos vou mostrar quem eu sou

Sou caroço com paixão
Estou habituado ao tuno borrachão

Usando um olhar penetrante capaz de grandes intuições, vemos nos nossos caroços o futuro da Azeituna.

O Tuno

Quando é reconhecido que o caroço reúne as condições essenciais para transitar para o estádio seguinte, este é presenteado com o Traje da Azeituna, passando agora a ser Tuno. Num ritual cheio de significado, é atribuído um voto de confiança que se pretende eterno. O reconhecimento atribuído ao Tuno é sinal de maior responsabilidade e de maior trabalho e dedicação. Agora que é visto como um potencial Azeituno, terá de continuar a sua evolução até que dê sentido ao acto de se tornar completo. No traje do Tuno existe ainda espaço livre sobre o ombro direito para receber o distintivo máximo da Azeituna, o “Minete”.

O Azeituno

Não há muito a dizer da perfeição absoluta. Alcançado o estágio final, o novo Azeituno passará a olhar para cada larva que entra pela primeira vez na sala da Azeituna com os olhos de quem conhece o caminho completo que esta terá de percorrer até que finalize a sua metamorfose Azeitunal.

* a praxe na Azeituna serve para transmitir conhecimentos, definir e delegar responsabilidades, perpetuar o espírito inicial do grupo; a praxe na Azeituna não serve para manifestações arbitrárias de poder nem para catarse de recalcamentos.

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