Repertório

CELTA

Música: Azeituna

O instrumental que começou a ganhar corpo no 1º Retiro Espiritual da Azeituna (1991) continuou a crescer, sendo tocado desde 1993 na abertura de todos os Certames Lusitanos de Tunas Académicas. A melodia começou a ser construída pelos nove magníficos presentes nesse retiro, após um dos pequenos almoços mais usais na época: Irish Coffee sem natas e sem café.

Palpitações Tunais

Letra: Sérgio Lucas
Música: Sérgio Lucas e Azeituna

Em busca de algo que representasse a alma das experiências vividas diariamente pelos Azeitunos, surge nos inícios dos anos 90 esta música. A partir de um poema e de um esboço musical de Sérgio Lucas “Metrónomo”, este tema, apesar de construído com leveza, cravou-se fundo no coração da Azeituna. É a música tocada para celebrar o momento em que o traje de caroço cai derrotado ao chão.

Moram numa alma, palavras
Numa capa, encerradas
A esperar um momento
De voar com o vento
Como aves que cruzam
O azul firmamento
Levam sons de vitória
Ou sabor a lamento

Vento mensageiro leal
Leva sem fazer mal
Ao coração que anseio
Melodias que brotam
Na alma de um trovador
Vêm de novo para mim
Murmurar-me ao ouvido
Diz que chama por mim

Canta o tuno em clamor
Sua vida singular
Quão profundo é o amor
Assim como é o mar
Canta o verde da terra
E o brilho dos teus olhos
Sua bela voz liberta
Sentimentos em mil folhos
Rasga a noite o silêncio
Veste a lua de cetim
Dá às ruas um mistério
Quer viver para sempre assim

Capa que guardas os segredos
Em ti escritos a negro
Afaga o coração
De uma má ilusão
Que vibra em harmonia
Com essa melodia
Palpitações de um tuno
Sem rumo e sem dia.

Noites de Ronda

Letra: Azeituna
Música: Azeituna / António Calçada

Em Loriga viveu um sapateiro de nome António Calçada que tocava no bandolim várias melodias de sua autoria. Sérgio Lucas “Metrónomo”  importa de Loriga dois desses temas e a Azeituna acaba por tocá-los amiúde nos primeiros tempos de existência.

No Retiro Espiritual de 1993, em Penamacor, a partir do tema musicalmente menos promissor, uma mão cheia de Azeitunos sentados nas escadas da Casa do Povo da pequena vila, trauteia uns arranjos e experimenta alguma poesia. Ainda antes das doze badaladas a primeira versão da letra estava concluída. Esta valsa acompanharia a Azeituna em muitas noites de ronda anos afora.

Lá ao longe o sol repousa
Solta-se a brisa surge o luar
Já no céu estrelas dormem
E amores antigos venho recordar

Se a noite fosse minha
Não tiraria dela o luar
Para que em noites de ronda
Teu suave rosto possa iluminar

Escuta meu amor nesta canção
Todo o ardor da minha paixão
Vem à janela ouvir cantar
Noites de ronda te venho murmurar

Não é meu teu olhar
Negro como a noite que passa
E não finda sem me ouvir cantar
Peço-te um sinal
Solta uma lágrima amarga
Quando o nosso amor findar

Adeus ó Braga

Letra e Música: Azeituna

Nas noites infindáveis do Café Lima acaba por brotar este tema que representa o adeus do estudante finalista à cidade de Braga. João Seabra “Morcego” abre as hostilidades escrevendo uma letra e Sérgio Lucas “Metrónomo” esboça uma melodia com a ajuda de Paulo Gonçalves “Latex”. A restante Azeituna dá os seus palpites e, entre finos e tremoços, molda a letra e a melodia ao seu feitio, criando esta música que foi também interpretada com o Coro Académico da Universidade do Minho sob arranjos vocais do Maestro Fernando Lapa.

Adeus ó Braga, cidade estudante
Eu prometo ser teu eterno amante
Adeus Augusta cidade do amor
Tu tens o nome de nobre imperador

Adeus ó Minho terra velha
Que te vestes do passado
Tuas mulheres de negro
Lembram quão triste é o fado

A capa que em mim traçava
Lembra-lhe a folha de Outono
Frágil, velha e cansada
Num embalo de abandono

Despeço-me das velhas ruas
Que me levam para a Sé
Recordo belas igrejas
E um povo cheio de Fé

Adeus ó olhos chorosos
Das donzelas que eu amei
Serenatas eu fazia
Mil promessas vos deixei

Na hora da despedida
Eu volto a recordar
Bracara Musa perdida
Que invoco com meu cantar

Antuninho

Letra e Música: Azeituna

Um original para o CD Palpitações. Foi assim que começou este carrossel vertiginoso de temas infantis e quadras em catadupa. O caroço Manuel “Piguelli”, natural de Vieira do Minho, é eleito por unanimidade, num julgamento breve e sumário, personagem inspiradora da música. A meia hora seguinte é passada por todos quantos se encontravam na Salinha da Azeituna a fazer quadras. Uma hora e muitas risadas depois o tema estava pronto para ser gravado. Assim o seria, mas apenas no dia seguinte.

Banda Sonora dos “Looney Tunes”

Antuninho, Antuninho
Não deixa as moças em paz
Aproveita enquanto é jovem
Com bengala é incapaz.

Antuninho, Antuninho
Cá no Minho é campeão
Se não fosse o seu paleio
Se não fosse o seu paleio
Tinha vida de murcão.

P’rós lados da caniçada
Vivia um rapagão
Ainda era menor de idade
Mas já as tinha na mão.

Trabalhava na lavoura
Mas não deixou de estudar
Tinha queda p´rás ciências
E à Azeituna foi parar.

Banda Sonora dos Marretas (“Muppet Show”)

Vocação não era certa
Certa era a sua folia
Passava a noite a tirar
Dúvidas de anatomia.

Para os pais grandes lamentos
Nos registos maternais
Eram mil os nascimentos
No presente e nos demais.

Banda Sonora do “Popeye”

Antuninho bom menino
Tinha horta de encantar
Cultivava o seu pepino
P’rás garotas o mostrar.

Quando às aulas não faltava
Assistia muito atento
As doutoras admiravam
O seu enorme “talento”.

Banda Sonora do “D’Artacão”

Arranjou um part-time
Fazia o que bem podia
Trabalhava no arame
Três a quatro horas ao dia.

Nas festas dos arredores
Fazia questão de estar
Sempre de olho nas moçoilas
Passava a noite a chular.

Banda Sonora dos “Flintstones”

O Mostrengo

Fernando Pessoa
Música: Sérgio Lucas “Metrónomo”, António Ribeiro “Tyson”, Azeituna

Parecia algo pessoal. João Seabra “Morcego” tinha a vontade inabalável de criar um ambiente musical para o poema de Fernando Pessoa, “O Mostrengo”. Tantas vezes foi o cântaro à fonte que lá se partiu. Sérgio Lucas “Metrónomo” lança a semente inicial dos ruídos de uma caravela em plena travessia marítima. O vaivém das ondas em alto mar. O ruído da madeira a estalar. O vento a rasgar as velas.

Numa noite de festa da Azeituna no terraço da casa de Norberto Moreira (membro dos Jogralhos), onde viviam também Luís Mendonça “Zandinga” e Sérgio Lucas “Metrónomo”, nascem as primeiras sonoridades do instrumental que viria mais tarde a ser enaltecido pelas vozes do Coro Académico da Universidade do Minho. Entre duas morcelas de arroz nasce o vaivém do mar em forma de baixos de guitarra e entre dois copos de tinto nasce o zunir do vento na vertiginosa subida e descida de um solo de bandolim. A semente lançada veio a crescer apenas algum tempo mais tarde quando Alberto Ribeiro “Tyson” pega também na música e concretiza, juntamente com Sérgio Lucas “Metrónomo”, a estrutura final tal como a conhecemos hoje.

O projecto de “Fusão Académica” entre a Azeituna e o CAUM veio criar as condições que faltavam para que este tema ganhasse um outro fôlego, e as vozes do Coro acabam por elevar esta música a um patamar verdadeiramente “cinematográfico”.

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
“Quem vem poder o que eu só posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”

Viajante

Letra: Daniel Pereira "Cristo"
Música: Ricardo Silva Mota e Daniel Pereira "Cristo"

Ainda antes da vida académica, numa banda de garagem chamada “Suspeitos do Costume”, Daniel “Cristo” e os seus amigos de infância entretinham-se com aquilo que mais gostavam: a música e o montanhismo, particularmente na serra do Gerês. Foi nesse contexto que surgiu esta melodia trovadoresca, curiosamente numa altura em que estavam mais voltados para o Rock dos seus inspiradores, os conterrâneos Mão Morta. Talvez por isso mesmo a música nunca tenha singrado no seio do grupo dos jovens rockeiros. Anos depois, em 2000, o tema agradou ao então ensaiador “Jagunço” e, numa altura de mudança e de gente nova, rapidamente se fizeram os necessários arranjos vocais.

O tema, que seria gravado logo no ano a seguir, só foi cantado em público uma meia dúzia de vezes, talvez por nunca ter chegado a ser aquilo que todos achavam que poderia ter sido. A esse respeito é interessante notar que os actuais jovens rockeiros da Azeituna (que formam a banda “Os Duques”) o tenham incluído no seu reportório, elaborando arranjos poderosos que nunca chegaram a ser alcançados pela Azeituna.

Viajante,
De serros e
Penedias
Sem um fim
Procurando,
Um lugar
Bem distante
Para sonhar

Foi sonhando
Que sentiu
Quão pequeno
Era o seu ser
Lagos, rios
Montes e fontes
Castelos e
Povoações

Viajando
Aprendeu
A ser maior
No seu pensar
Tolerante
Procurava
Um lugar
Para estar só

Suevos

Letra e Música: Daniel Pereira "Cristo"

A simbiose da Azeituna com os outros grupos musicais dos quais os seus elementos fazem também parte foi sempre uma constante. A música Suevos nasce no seio do grupo folk minhoto-duriense Arrefole, e conta-nos a história do ultimo rei dos Suevos (Miro, filho de Teodomiro) e do seu amor proibido na época em que via o seu reino a ser subjugado pelo domínio visigótico.

A paixão da Azeituna pela sua sonoridade folk, tradicional e até com uma pitada de medieval, fez com que a tivesse acolhido no seu seio, fazendo sua a romanceada história do Reino dos Suevos. Se a música já funcionava bem nos Arrefole, o acréscimo de coros de vozes e de gaitas de fole guerreiras trazido pela Azeituna, acaba por criar um ambiente ainda mais poderoso.

Interessante que, após o instrumental Celta, este foi o primeiro tema a ser cantado no renovado Theatro Circo. A interpretação contou com a voz convidada da vocalista do grupo folk, Raquel Ferreira.

O amor não se escolhe
É o que eu conto nesta estória
Passada há muito tempo
Num tempo já sem memória
É a estória de um rei
Rei do reino dos Suevos
Que se enamorou de alguém
A mulher de um dos seus servos

Foi em Braga, capital dos Suevos
Que um rei beijou a musa dos seus sonhos

Esse amor proibido
Tinha mesmo que acabar
Um reino quase perdido
E um último olhar
Triste sina a de um rei
Do rei Miro dos Suevos
Que enfim foram conquistados
Do Sul pelos Visigodos

"Esta estória de amor
tem 1500 anos
Tem vidas, paixão e dor
Para sempre as forças dos tempos"

 

Assim Nasceu um País (1128 - 1143)

Letra e Música: Daniel Pereira "Cristo"

Novamente da simbiose da Azeituna com os Arrefole surge um novo tema, situado desta vez em plena Idade Média. Seiscentos anos mais tarde, como que no seguimento da toada anterior (“Suevos”), nasce nesta mesma região um país, fruto de um povo que queria ser independente, fruto de um povo que queria ser Portugal.

Da batalha de S. Mamede a 24 de Junho de 1128, até 5 de Outubro de 1143, onde o Rei de Castela e Leão reconhece Portugal como Reino independente, foram longos os anos de luta do povo e dos nobres que estavam ao lado de D. Afonso Henriques. É essa preserverança e esse querer e crer que celebramos com esta música. Um facto curioso é que este tema foi um dos candidatos à pré-selecção do festival RTP da Canção, não chegando a apurar-se para a final.

O que é certo é que mais uma vez Daniel Pereira “Cristo” sugere a música aos companheiros da Azeituna e rapidamente, em conjunto, são criadas novas roupagens, renovando a força e a alma já presentes.

Naqueles tempos de guerra
Entre Leão e os Mouros,
Veio um Duque de Borgonha
Combater os Sarracenos.

Em Leão o nobre Henrique,
Depois de feitos brilhantes,
Casou com D. Teresa:
- Os Condes Portucalenses.

Assim nasceu um país,
Dele fez parte quem quis
Com astúcia e sem temor!

Gente mui nobre e Leal
das terras de Portugal,
De Afonso Fundador.

Nesse condado distante
P’r'ós lados do Minho e Douro,
Nasceu um valente Infante
- El Rei Afonso Primeiro

Batalhou em São Mamede
O sonho de um Reino novo,
Conquistou a Liberdade
Co’a Força de todo um povo!

Luso-Galaico-Celta

Música: Parte "Luso" - Daniel Pereira "Cristo" (Azeituna) | parte "Galaico" (instr. Albores) - Isaac Palacin, Quico Comesaña e Guillermo Fernandez (Berrogüetto) | parte "Celta" (instr. Travessia)  - Ricardo Coelho (Arrefole)

É uma mistura de 3 trechos esta espécie de viagem instrumental pelos povos de origem Celta. Mais de dois milénios depois essa cultura continua a transmitir-nos o seu viver e o seu sentir através de uma forma musical que quer perdurar pelos tempos. Como se existisse uma vontade própria desses mitos e lendas, dessa vida festiva e dançante, dessa forma de ser tão particular! Também isto é Azeituna.

Ao trecho do Ricardo (na altura nos Arrefole, hoje em grupos como Pé na Terra ou Karrocel) juntámos o fantástico trecho, pela sua simplicidade e vivacidade, dos Berrogüetto, um dos maiores grupos da folk mundial (daqui de bem perto, entre Vigo e Santiago) e cimentamos tudo com um cheirinho bem minhoto e um cavaquinho bem rasgado.

Percursos

Música: Excertos do "Adeus ó Braga" - Sérgio Lucas (Azeituna) | parte "América do Sul" - Daniel Pereira "Cristo" e Raúl Silva "Gugu" (Azeituna) | parte "Leste" - Daniel Pereira "Cristo" e Manuel Carvalho "Piguelli" (Azeituna)

Celebrando as imensas viagens que a Azeituna realizou durante todos estes anos este instrumental resulta de trechos que foram “acontecendo” em alguns dos locais onde fomos tocando. O vício das percussões brasileiras e de transformar um qualquer pedaço de música em samba ou bossa nova deu-nos um fim, construído com as mesmas notas do início, mas com estas a bailar esfuziantes por cima de pandeiros e tan-tans. Ambos (fim e início) são o mesmo trecho músical, o instrumental final do “Adeus ó Braga”, composto pelo nosso Sérgio Lucas “Metrónomo”.

No meio, a música viaja algures pela América do Sul, juntando uma melodia enternecida com um calor tropical e, antes do final, dá um salto ao leste europeu, engarrafando um pedaço da digressão de 2005 naquela fracção de música. De facto, grande parte do trabalho foi feito nos comboios que transportaram a Azeituna pelo arco Croácia - Polónia e a influência dos sons do leste é totalmente indesmentível.

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